Confrade Renato Lima
16º Presidente Geral da SSVP
EM FOCO: Artigo

Na nossa caminhada rumo à santificação pessoal pela prática da caridade, encontramos muitas sombras, pedras, trevas e cruzes. Para vencer esses desafios (que não são poucos), precisamos fortalecer a vivência da fé e das virtudes teologais, cardeais e vicentinas, pois isso nos dará o vigor necessário para superar tais adversidades. E, nessa jornada, a Conferência vicentina exerce um papel preponderante no nosso processo de santidade.

Sou eu quem mais precisa da Conferência, e não ela de mim, pois participar de uma Conferência vicentina permite que todos nós possamos crescer na espiritualidade. Os eventos de formação e de aprimoramento espiritual a que podemos participar, ao longo da nossa vida vicentina, são demonstrações cabais de que a SSVP investe muito nos confrades e nas consócias, visando formar bem ao criar uma geração de pessoas que buscam a santidade, por meio da oração e do serviço caritativo. São Vicente é o nosso maior modelo de santidade.

Sou eu quem mais precisa da Conferência, e não ela de mim, pois assim podemos melhorar como pessoa. É na vida cotidiana da SSVP que nos deparamos com diversos problemas e precisamos encontrar soluções para a resolução desses problemas. Se formos duros no coração, jamais o consenso será alcançado. Assim, ser vicentino molda o nosso caráter, alivia as nossas misérias, ajuda-nos a sermos bons cidadãos e torna-nos pessoas mais gentis, mais conciliadoras e menos arrogantes. Para isto, basta seguir o exemplo dos sete fundadores.

Sou eu quem mais precisa da Conferência, e não ela de mim, pois assim podemos ajudar a construir um mundo melhor. Nós, confrades e consócias, somos pessoas práticas, que colocamos a mão na massa para servir aos que sofrem. Não somos pessoas que usamos de ideologias ou narrativas políticas para justificar mudanças nos regimes. Não esperamos os políticos agirem; fazemos a nossa parte. Queremos construir um mundo menos desigual e menos excludente, por isso decidimos ingressar na SSVP. Ozanam nos deixou esse legado de estarmos sempre inconformados com a pobreza.

Sou eu quem mais precisa da Conferência, e não ela de mim, pois assim podemos defender os valores do Evangelho com mais ênfase. O mundo, hoje, é arredio ao sagrado. Os meios de comunicação e a vida política rechaçam a religião no seio da sociedade, e até demonstram preconceito e perseguição contra os cristãos. Ser vicentino, especialmente em países fechados, é uma maneira concreta de defender os valores da família, da vida e do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, dando-nos uma real oportunidade de praticar a fé e de apoiar a Santa Igreja.

Por fim, sou eu quem mais precisa da Conferência, e não ela de mim, pois assim temos a oportunidade de fazer o bem. Fazer parte de alguma entidade como a nossa, com forte viés humanitário e filantrópico, é uma dádiva de Deus, pois assim podemos ajudar a quem padece e dividir um pouco o que temos, como nos pediu o Senhor Jesus. Ser confrade ou consócia é a chance que temos que entrar no Paraíso por meio das ações da caridade junto aos pobres. “Aquele que faz o bem é de Deus” (III João, 11). Que o Espírito Santo nos inspire e nos ilumine nessa direção!

Por fim, deixo uma pergunta intrigante para reflexão de todos vocês: é a Conferência que precisa de mim, ou sou eu quem mais precisa da Conferência?

Confrade Renato Lima de Oliveira, 16º Presidente-geral

(Fonte: Boletim Brasileiro, Edição janeiro/fevereiro 2021)

PODCAST
Processo de Canonização do Bem-aventurado Antônio-Frederico Ozanam
Ternura e empatia: marca registrada do confrade e da Consócia.
Conselho Geral Internacional: resumo histórico, missão e visão..
Outras pandemias dos tempos atuais: pandemia da fome, do desemprego, da desesperança…
Conheça a CIAD: Comissão Internacional de Ajuda e Desenvolvimento da SSVP
Entrevistas
Programa "Além da Notícia", na TV Canção Nova
(Vicentinos)
Programa "Além da Notícia", na TV Canção Nova
(Atuação dos Vicentinos bloco 1)
Programa "Além da Notícia", na TV Canção Nova
(Atuação dos Vicentinos bloco 2)
Programa "Além da Notícia", na TV Canção Nova
(Atuação dos Vicentinos bloco 3)
Artigos

(Matéria publicada em 10/11/2020)

No próximo dia 15 de novembro, os brasileiros são novamente chamados às urnas, desta vez para escolher prefeitos e vereadores. É um momento de júbilo para a nossa tão incipiente democracia, padecente de bons candidatos, boas propostas e boas perspectivas.

Mas, como cristãos, não podemos perder as esperanças de que as coisas irão melhorar, com fé. É verdade que a classe política vem destruindo a relação salutar que deveria haver entre cidadão e democracia, mas apesar de tudo, ainda há luz no fim do túnel. Temos que nos envolver para poder qualificar a política.

Precisamos saber eleger bem. Saber escolher as melhores pessoas dentre os que apresentam como candidatos a prefeito e a vereador. Precisamos conhecer a vida dessas pessoas, as plataformas de trabalho, as origens delas e, principalmente, o que elas pretendem fazer para exercer a função pública de forma exemplar, com dignidade, honestidade, eficiência e qualidade. Pode até não ser fácil encontrar as pessoas certas, mas temos que tentar. Há muita gente boa que sempre se candidata, mas que não consegue se eleger.

Graças a Deus, há muitos católicos – e até confrades e consócias – que se lançaram candidatos, em diversas cidades pelo Brasil. Eu, particularmente, fico muito feliz ao constatar que ainda há pessoas de bem que querem doar seu tempo e suas ideias para a causa do bem comum. Foi assim também com o bem-aventurado Antônio-Frederico Ozanam, que em 1848 se candidatou a deputado federal na França e obteve uma expressiva votação (18.000 votos), mas lamentavelmente insuficiente para conseguir uma cadeira no Parlamento.

Ozanam fez a parte dele: colocou-se à disposição. Ele – segundo a literatura – não queria participar do pleito, mas foi estimulado pelos amigos que sabiam da seriedade, da cultura e das propostas de Ozanam (já consolidadas nos livros, artigos e escritos dele) sobre os direitos sociais, sobre o trabalho e a defesa da vida. Que grande deputado Ozanam teria sido se tivesse sido eleito! Na verdade, ele mesmo se arrependeu de ter entrado na disputa tão tardiamente, e de não ter tido tempo para visitar todas as comarcas e bairros da região de Lyon, durante a campanha.

Este ano, as eleições brasileiras caem na mesma data do DIA MUNDIAL DOS POBRES, definido pelo papa Francisco como um momento de reflexão a respeito da maneira como a humanidade trata os irmãos necessitados (aqui em acepção ampla: carência material, espiritual, moral, etc). O que o DIA MUNDIAL DOS POBRES tem a ver com o processo eleitoral para a escolha de prefeitos e de vereadores? Tudo a ver!

Na reflexão papal, somos convidados a encontrar formas de reduzir as desigualdades sociais, a miséria e a exclusão dos vulneráveis. Somos convidados a buscar formas de ajuda aos que sofrem, tanto no aspecto do emprego, quanto na questão da educação e saúde. Em outras palavras, essa data da Igreja é um convite a que encontremos, dentro da sociedade civil, as respostas e soluções para as mazelas sociais. Portanto, eleger bons governantes é o primeiro passo para termos uma sociedade mais justa, mais fraterna e menos desigual. Um político pode fazer coisas grandiosas, positivamente falando, se ele quiser.

O que as pessoas precisam é de emprego. Com emprego, nossos assistidos deixam de ser assistidos. Com emprego, as famílias podem voltar a consumir. Com salário digno, nossas famílias socorridas terão melhores condições de oferecer educação e saúde para seus filhos. Portanto, escolher mulheres e homens públicos é a primeira medida que podemos empreender para conquistar essas melhorias para todos. Vote bem, vote consciente! Escolha os melhores, e rezemos pelos políticos! Como dizia Francisco, “a política é a forma mais elevada de caridade”. Pense nisso.

Confrade Renato Lima de Oliveira 16º Presidente-geral da SSVP


No Sermão da Montanha (São Mateus 5, 3-16), Jesus nos apresenta as bem-aventuranças que são ensinamentos que anunciam o Reino de Deus e nos levam à felicidade e à salvação. Jesus refere-se aos pobres e aos que choram, aos mansos e justos, aos misericordiosos, puros e pacíficos, aos caluniados e perseguidos, pois todos estes herdarão do reino dos céus. São promessas efetivas de Cristo que aliviam os nossos corações e mostram o caminho da santidade, da tolerância, da humildade e do amor. Bem-aventurados são todos esses que cumprem a palavra de Deus. Eles são abundantemente felizes, imensamente abençoados.

São Paulo vai complementar a mensagem de Jesus, ampliando a alegria de possuir os céus. Ele afirma que “mais bem-aventurado é dar do que receber”“Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, devemos socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: mais bem-aventurado é dar que receber” (Atos 20, 35). Essa “nova promessa”, em continuidade à primeira, traz-nos um contentamento enorme a todos nós, confrades e consócias, membros da querida Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), à medida que nosso propósito absoluto é a prática da caridade sem limites e sem fronteiras. O amor é altruísta; pensa mais no próximo do que em si mesmo. O amor tem mais alegria em dar do que em receber. Quanto mais damos, mais recebemos.

Esse apelo bíblico (“é melhor dar que receber”) torna-se o convite amoroso do Pai Celestial à caridade que deveria ser amplamente praticada entre os filhos de Deus. Quando as Escrituras mencionam o verbo “dar”, não está unicamente falando de bens materiais, mas, sobretudo, da caridade espiritual e moral, além das próprias obras de misericórdia (dar bons conselhos, corrigir o irmão e perdoar, entre outras ações concretas, como dar de comer, dar de beber e vestir). Porém, é também verdade que “a quem muito tem, muito será cobrado” (São Lucas 12, 48). Temos que estar atentos ao apelo de Jesus para que possamos ser chamados, de fato, de cristãos.

Quando damos aos pobres, é como se estivéssemos dando ao próprio Deus (São Mateus 25, 40). No dia do juízo final, as pessoas serão julgadas segundo as suas obras. Temos de ver Deus no rosto do nosso próximo (1ª João 4, 20). Negligenciar a generosidade aos pobres, aos fracos, aos doentes e aos aflitos é como sonegar a Jesus um gesto de socorro. Deixar de dar pão a quem tem fome é o mesmo que negar um prato de comida ao Filho de Deus. São Paulo diz, ainda, que o que ofertamos aos outros é como uma oferenda a Deus, como um sacrifício “aceitável e agradável” (Filipenses 4, 18). Essa promessa é reforçada em outras passagens da Bíblia, como “dai, e ser-vos-á dado” (São Lucas 6, 38) ou “pedi e recebereis” (São Mateus 7, 7-12).

Receber algo de alguém é uma grande bênção e nos proporciona uma grande felicidade, mas Jesus disse que a alegria de dar é maior ainda do que a alegria de receber. Há inúmeras “recompensas” para aqueles que têm o coração generoso, pois Deus prometeu que irá libertá-lo no dia da aflição, preservá-lo do inimigo, consolá-lo na enfermidade e trará felicidade a ele (Salmo 41, 1-3). Portanto, queridos confrades e consócias, é gratificante saber que Deus nos ama pelos atos de caridade que praticarmos aos que sofrem. Somos muito abençoados por fazermos parte da Sociedade de São Vicente de Paulo: uma escola de caridade e de santificação. Façamos de tudo, em nossas vidas, para servir ao outro, dando o que temos de melhor e dando-nos a nós mesmos como irmãos, amigos e companheiros de caminhada rumo ao Paraíso.

Renato Lima de Oliveira
16º Presidente-geral da SSVP


Nossa salvação depende, além da fé viva que temos em Jesus Cristo, dos gestos e atos que tivermos realizado, aqui na Terra, perante o próximo. A Bíblia está repleta de “garantias divinas” sobre as recompensas que receberemos diante do bem verdadeiro que fizermos.

São Paulo adverte que iremos comparecer “ao tribunal de Cristo” com a finalidade de receber a “devida recompensa” (prêmio ou castigo) do que tivermos feito ao longo de nossa vida corporal (2ª Cor 5, 10). Noutra passagem, o mesmo Paulo garante “a coroa da justiça” (isto é, a vitória da salvação) àqueles que guardarem a fé e combaterem o bom combate (2ª Tm 4, 8), ou seja, para todos que aliarem fé e prática.

Na Carta aos Gálatas, Paulo alerta sobre as obras da carne, as quais, quem as praticar, não herdará o reino dos céus. Ao mesmo tempo, o apóstolo garante que quem viver e cumprir os frutos do Espírito Santo, entre eles a caridade e a bondade, serão salvos (Gl 5, 19-25). Também vale registrar duas passagens que se complementam entre si: “O Filho do Homem recompensará, a cada um, segundo suas obras” (Mt 16, 27) e “Eis que venho, em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras” (Apoc 22, 12).

Outra citação cabal pode ser encontrada em Romanos: “No dia do juízo, Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras: a vida eterna aos que fizerem o bem” (Rom 2, 6). Além da promessa de vida eterna, a vivência e prática da caridade também ajudam a melhorar-nos como pessoa: “Mantenham entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre a multidão de pecados” (I Pd 4, 8).

Também no Antigo Testamento podemos encontrar citações que atestam o julgamento dos fiéis com base nas obras de caridade realizadas ao longo da vida: “Tu lhes darás recompensa, Senhor, conforme a obra das suas mãos” (Lamentações 3, 64). Em Provérbios, encontramos duas pérolas que trazem conforto ao nosso coração: “O encanto de um homem é a sua caridade” (Prov 19, 22) e “O homem benevolente será abençoado” (Prov 22, 9).

Portanto, como se vê, na Bíblia há diversas sinalizações de que todos nós, ricos ou pobres, passaremos pelo julgamento divino, e poderemos receber dois vereditos: o prêmio (céu) ou o castigo (inferno). Se formos caridosos e praticarmos a caridade durante nossas vidas, nossas chances de entrar nos céus é bastante elevada.

As Sagradas Escrituras são bem claras; nós, porém, é que, às vezes, tentamos mascarar as coisas para tentar evitar as consequências de nossas ações, mas Deus é onipresente e onisciente. Não devemos ter medo do julgamento, pois Jesus assim prometeu: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25, 34). Mas essa “herança” só acontecerá se praticarmos atos de caridade, como dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, visitar os enfermos e os encarcerados, etc (Mt 25, 35s).

Desta maneira, ser vicentino é uma oportunidade ímpar que Deus nos dá para entrarmos no Paraíso. Quer prêmio maior que poder ver a face de Deus? Quer alegria maior que poder abraçar a Cristo e a Nossa Senhora? Há algo mais importante que entrar no Reino dos Céus?

Portanto, a fé vale muito no processo de santificação, pois é a base de tudo. Mas, sem as obras de caridade, ficará muito difícil alcançar a eternidade, como nos afiança São Tiago: “Assim como o corpo sem alma é morto, assim também a fé sem obras é morta” (Tg 2, 26). Para reflexão: temos consciência de que as boas obras que praticarmos nos abrirão as portas do Paraíso?

Renato Lima (Divino 10/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Estamos vivendo em uma época na qual boa parte das pessoas estão cada vez mais preocupadas consigo mesmas. O egoísmo e o individualismo estão superando as previsões mais conservadoras. As pessoas falam apenas de dinheiro, carros, compras, viagens, bens patrimoniais e elementos relacionados ao aspecto material.

Há pouco espaço para o espiritual e para os valores familiares. Casamento e filhos, por exemplo, são assuntos quase proibidos! É, de fato, um cenário devastador para todos os cristãos, especialmente para nós, vicentinos, que lutamos para construir um mundo mais fraterno e menos desigual. É por isso que a mensagem salvífica de Cristo continua atual, e torna-se cada vez mais necessária num ambiente em que a maldade parece superar a bondade.

Nas redes sociais, por exemplo, é possível verificar a futilidade das pessoas e o grau bastante raso que os indivíduos têm ao se manifestarem publicamente. Elas procuram mostrar uma pretensa imagem de felicidade, ao estarem rodeadas de amigos, mas na verdade são pessoas solitárias, psicologicamente fragilizadas e tristes. Basta conferir os comentários delas, publicados nos sites de relacionamento pessoal.

O que dizer disso tudo? É realmente decepcionante e devastador comprovar que as pessoas estão, a cada dia, mais fechadas em seus mundos. E o que isso tem a ver com o trabalho de promoção humana da Sociedade de São Vicente de Paulo? Tudo! A ação de caridade desenvolvida pelos confrades e consócias é calcada na colaboração e na solidariedade, só podendo ser praticada por pessoas desapegadas e com um olhar aberto ao próximo.

Já o egoísta, por natureza, é uma pessoa que se preocupa unicamente consigo mesma. Ele não tem com quem debater um assunto, pois não precisa prestar contas a ninguém. Sua forma de ver o mundo é extremamente limitada. Ele tem enormes dificuldades em reconhecer as virtudes do próximo, portanto, como poderá levar uma palavra amiga a quem está sofrendo? O egoísta dificilmente rejubila-se com o sucesso do outro, por conta da inveja. Essas pessoas não têm a humildade de reconhecer derrotas, nem a magnanimidade de valorizar àqueles que se sobressaem nas atividades cotidianas.

Outro aspecto muito relevante: o estilo egoísta não se coaduna com o estilo da SSVP. Na nossa entidade, desde os primórdios da fundação, prevalece o “espírito colegiado” e o “desapego do próprio parecer” durante o processo de tomada de decisão. Falando mais claramente: as decisões são tomadas por consenso, escutando-se a todos e chegando-se a uma deliberação democrática e diplomática.

O egoísta, por sua vez, toma decisões unilaterais, e assim, prejudica o modo de ser da SSVP, cujo pilar reside no caráter coletivo das deliberações. Essa é outra problemática que podemos verificar quando alguns dirigentes vicentinos tomam decisões que são, posteriormente, consideradas inadequadas, pois foram idealizadas fora do espírito vicentino, egoisticamente.

Por fim, é lamentável que tenhamos membros com esse perfil individualista. Essas pessoas, geralmente, também ingressam na SSVP com interesses particulares, e até mesmo políticos, aproveitando-se do caráter meritório da associação para catapultar temas de interesse pessoal. São pessoas que permanecem na SSVP até o momento em que não conseguem absorver mais nada da entidade. Depois, saem da Conferência e não deixam saudades.

Cuidado com quem age dessa maneira, pois não possui o “selo de Ozanam” em sua fronte. Essas pessoas precisam, na realidade, de ajuda psicológica e de apoio espiritual para mudar suas próprias vidas, e somente deveriam pertencer a grupos sociais ou similares após resolverem, primeiro, sua delicada situação emocional.

Renato Lima (Divino 09/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Todos nós sabemos que o trabalho primordial das Conferências Vicentinas é a assistência material e espiritual das famílias humildes que são socorridas. Mas além desse aspecto “familiar” da entidade, não podemos nos esquecer de que a própria Sociedade de São Vicente de Paulo é uma instituição familiar acima de tudo.

Primeiramente, ela foi idealizada e estabelecida num ambiente de família. Bailly e os demais fundadores mantiveram o clima doméstico no seio do grupo, pois aqueles jovens eram, antes de tudo, amigos, e conviviam na mesma pensão, e “adotaram” Bailly e a esposa dele como seus pais morais.

Além da fundação “familiar” da SSVP, não podemos negar que a forma como as Conferências evoluem também tem a ver com as sociedades familiares. Explicando melhor: nossos dirigentes “saem” das Conferências; é lá que eles são formados, preparados e forjados. A preparação dos sucessores na estrutura da SSVP acontece dentro das Conferências, assim como nas empresas familiares.

Outro aspecto interessante, que só vemos em sociedades familiares, é a transmissão do conhecimento, da ética e dos valores do grupo. É evidente que existem os cursos de capacitação para o aperfeiçoamento dos procedimentos. Mas a garantia de que os novatos irão seguir no mesmo caminho trilhado por Ozanam e seus companheiros é uma responsabilidade dos atuais confrades e consócias.

Também é de responsabilidade dos atuais membros da SSVP a manutenção fiel às origens da entidade, assegurando que a entidade possa crescer sem perder o “marco zero” da fundação colegiada. Manter-se fiel às origens, à vocação e ao carisma da entidade é dever de todos os vicentinos, e tal “legado” deve ser “levado” a todos aqueles que ingressarem no grupo, posteriormente. É como se existisse uma “governança invisível” dentro da empresa familiar chamada SSVP!

As sociedades centenárias, como a nossa, são assim; possuem essas características, algumas delas intuitivas. É difícil até falar sobre o assunto, pois na verdade tais procedimentos acontecem com tanta naturalidade que nem nos damos conta de que somos uma “empresa familiar”. Voltando ao assunto dos dirigentes, é igual quando o dono da empresa, geralmente o pai da família, prepara seus filhos para, no futuro, conduzirem os destinos daquela empresa.

Assim também ocorre na SSVP. Quando um confrade ou uma consócia assume a presidência de uma Conferência, de um Conselho (não importa o nível hierárquico) ou de uma obra assistencial, a partir do primeiro dia de mandato já deve se preocupar com a sucessão. É preciso preparar bons nomes para que, quando a eleição chegar, não haja descontinuidade nas ações vicentinas. Por isso, devemos escolher dirigentes responsáveis e, acima de tudo, servidores.

Toda empresa tem seu negócio. O “negócio” da SSVP é a caridade. Não percamos o rumo. Às vezes, algumas pessoas recém-ingressadas introduzem ideias e posturas diferentes ao carisma vicentino, e seguramente esse tipo de influência externa trará danos. Não estou aqui defendendo que a SSVP seja uma instituição fechada; peço, apenas, que qualquer inovação seja muito bem refletida, e que os mais experientes possam analisar se tais aprimoramentos estejam afinados com nossas origens. Por exemplo, no campo da assistência, muitos vicentinos são obcecados por obras sociais, esquecendo-se do trabalho precípuo da Conferência que é a visita domiciliar, a maior obra social da SSVP! Não devemos perder nossas forças nem “diversificar” nossa atuação católica em “outros negócios” que não a caridade.

Portanto, valorizar e respeitar o “espírito primitivo” da Sociedade de São Vicente de Paulo é a chave da manutenção da entidade, sempre em unidade com a Igreja e a favor dos pobres, os preferidos de Deus. Que sejamos uma família, dentro e fora da Conferência!

Renato Lima (Divino 08/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Nem sempre os vicentinos se apercebem sobre a beleza espiritual que é a “Oração de Canonização de Ozanam”, rezada ao final das reuniões vicentinas. Com pressa, às vezes, os membros da Conferência rezam a referida oração de forma acelerada, deixando de observar, com a atenção necessária, o conteúdo de cada frase, de cada verbo e de cada expressão. Na oração, não só pedimos pela canonização deste santo homem, como também meditamos a respeito da vida e da obra dele.

Logo na abertura, o texto diz: “Senhor, fizeste do beato Frederico Ozanam uma testemunha do Evangelho, maravilhado pelo mistério da Igreja”. É lindo ver que o Vaticano reconhece Ozanam como alguém que vivia intensamente o Evangelho e o próprio mistério da Igreja (“dimensão visível”, com o próximo, e “dimensão invisível”, com o Altíssimo). Na parte “Inspiraste seu combate contra a miséria e a injustiça, e o dotaste de uma generosidade incansável, ao serviço de todos aqueles que sofrem”, a oração fala que o Ozanam não se cansava de praticar o bem, combatendo não só a miséria física e material, como também a espiritual e moral.

Uma das partes mais bonitas é “Em família, ele se revelou filho, irmão, esposo e pai excepcional”. Aqui, fica cristalino que Ozanam era um vigoroso defensor da família, além de ser um marido dedicado, amoroso e romântico (como se sabe, ele presenteava a esposa Amélia, no dia 23 de cada mês, com um ramalhete de flores). A expressão “No mundo, sua ardente paixão pela verdade iluminou seu pensamento, seu ensinamento e seus escritos”, relata que Ozanam buscava a “santidade no mundo”, e não guardava os conhecimentos adquiridos apenas para si, compartilhando-os com todos, por meio de seus artigos, publicações e livros.

Dentro da oração, há uma bela homenagem a São Vicente, de onde Ozanam e os demais cofundadores beberam nas fontes mais inspiradoras e autênticas da fé: “À nossa Sociedade, que concebeu como uma rede universal de caridade, ele soprou o espírito de amor, de audácia e da humildade, herdados de São Vicente de Paulo”. A curta vida de Ozanam (40 anos) não o impediu de ser um exemplo para toda a humanidade: “Em todos os aspectos de sua breve existência, emerge sua visão profética da sociedade, tanto quanto a influência de suas virtudes”. Esse trecho também se relaciona à Doutrina Social da Igreja, da qual Ozanam foi declarado precursor, pela Igreja, ao defender os direitos sociais, civis e trabalhistas, numa época em que aos operários era imposto um ritmo desumano de trabalho.

O Divino Espírito Santo dotou Ozanam de muitos talentos, e o texto assim o registra: “Por essa multiplicidade de dons, nós te agradecemos Senhor”. E por fim, pedimos a Deus, por meio de um novo milagre, a canonização de Antônio Frederico Ozanam: “E solicitamos – se é de Tua vontade – a graça de um milagre, pela intercessão do beato Frederico Ozanam. Possa a Igreja proclamar sua santidade, se esta for providencial para o momento atual. Nós te pedimos por Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém”. Só com a canonização de Ozanam é que poderemos mostrar, ao mundo todo, sem restrição de culto ou de veneração, o legado e as contagiantes virtudes deste santo homem!

Para conseguirmos lograr esse objetivo, precisamos de DEVOTOS! Sem devotos, jamais alcançaremos esse novo milagre indicado pela Igreja. Portanto, os vicentinos devem incluir, efetivamente, a figura de Ozanam em suas orações e petições particulares, para que, um dia, consigamos esse segundo milagre. Se continuarmos pedindo a Deus, por intercessão dos demais santos católicos, a respeito de nossas necessidades (emprego, saúde, etc), sem envolver Ozanam, ficará difícil obter o milagre. Mas se mudarmos nossa forma de orar, com certeza a veneração a Ozanam será intensificada e alcançaremos o milagre tão esperado pela comunidade vicentina internacional.

Renato Lima (Divino 07/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


A Lei nº 7.352/1985 estabeleceu, no Brasil, a data de 28 de agosto como o “Dia Nacional do Voluntariado”. Voluntários são as pessoas que ajudam ao próximo sem se preocupar com reconhecimento, salário, status ou exposição política. É o cidadão que, motivado pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário.

Já se conhecem os benefícios que se têm ao realizar ações de ajuda ao próximo. Quem ajuda as pessoas, reduz o risco de morte precoce, vive mais, tem menos doenças, consegue emprego, entre outros ganhos pessoais.

Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, revela que pessoas empenhadas em ajudar ao próximo, em ações voluntárias, reduzem em 60% o risco de morte precoce. Os investigadores consideraram que a generosidade tem relação com a longevidade. A pesquisa mostra também que os mais egocêntricos têm mais que o dobro de risco de morrer mais cedo.

Existem pesquisas científicas apontando que a atitude de ajudar a quem precisa colabora também com a saúde, como, por exemplo, baixando os níveis de colesterol, reduzindo a hipertensão e aumentando a expectativa de vida.

Outras pesquisas internacionais apontam os grandes benefícios para a saúde do nosso corpo: ajudar ao próximo faz bem ao coração, ao sistema imunológico (aumenta as defesas naturais do organismo), aumenta a expectativa de vida e a vitalidade de maneira geral.

A palavra mais justa que define o trabalho voluntário é a solidariedade. Além de estar beneficiando a quem precisa, ajudar ao próximo faz bem ao coração. Vendo os problemas de outras pessoas é possível perceber que os nossos são bem pequenos, e que não devemos reclamar tanto e sim agradecer mais.

A importância de ser voluntário é tão grande que muitas empresas buscam empregar pessoas que possuam, em seus currículos, ações de voluntários e beneficentes. Nos processos seletivos, as corporações preferem pessoas que visam ao bem-estar social, oferecendo mais qualidade de vida para quem precisa, dedicando o tempo livre para contribuir com necessitados.

Atuar em ações sociais ajuda a conquistar melhores empregos. Gestores de recursos humanos de grandes empresas afirmam que um candidato que disponibiliza parte do tempo livre para ajudar outras pessoas pode ser considerado pela empresa como alguém comprometido com uma causa e que se pode esperar dele o mesmo comprometimento no trabalho.

Ajudar ao próximo faz bem à saúde do corpo e da alma, trazendo várias vantagens. A primeira delas é que nos propicia um sentido para a vida (esse prazeroso esforço de servir ao próximo é uma das mais maneiras de darmos um sentido para a vida). A segunda, é que torna-nos mais produtivos em nossa atividade profissional (quando a pessoa que se aproxima do sofrimento do próximo vê seus problemas pessoais numa outra dimensão).

Para ajudar a quem precisa, basta ter disponibilidade de tempo e vontade de servir. Pode ser numa igreja, numa organização não governamental, num clube de serviço, entre outras possibilidades. O Brasil é um país ainda pouco solidário. Estima-se que somente 11% da população se envolva em alguma ação voluntária permanente, ou participe de grupos sociais de assistência, filantropia e caridade, como o Rotary Club, os Vicentinos, Cruz Vermelha ou o Centro de Valorização da Vida (CVV), entre tantos outros. Contudo, muitos alegram falta de tempo para poder engajar-se numa cause social.

São muitas as possibilidades de se empreender alguma ação voluntária, em instituições religiosas, educacionais, ambientalistas, esportivas, de saúde, de inclusão social. Basta começar. Quem sabe a data de hoje não estimula que muitos brasileiros ajudem a construir um país melhor, sendo voluntário?

Renato Lima (Divino 06/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Uma das principais características do trabalho vicentino é a chamada “caridade organizada”. Essa marca vem desde as origens do carisma, quando São Vicente de Paulo, em 1617, portanto há 400 anos, proferiu o célebre Sermão da Caridade, na cidade de Chatillon-des-Dombes, onde ele era pároco. Nos livros vicentinos, podemos encontrar a informação de que tal homilia ocorreu no dia 20 de agosto de 1617, quando o santo da caridade expôs a situação de carência vivida por uma família das redondezas da paróquia, e a comunidade respondeu prontamente ao apelo do sacerdote, fazendo-lhe visitas e doando-lhe bens.

Só que a ajuda prestada pelos membros da comunidade àquela família pobre ocorreu de maneira desorganizada. A entrega das doações, como alimentos, roupas, remédios e calçados, foi muita generosa. Era verão na França àquela altura e fazia muito calor; as pessoas descansavam pelo caminho, sentadas no chão refrescando-se nos riachos. Relata a história que tamanha era a quantidade de pessoas indo visitar a família necessitada que, pelo caminho, alguns chegavam a afirmar que se tratava de uma procissão. Eram apenas as pessoas de boa vontade, sensibilizadas pela solicitação de Vicente, para acolher e ajudar a uma família carente.

São Vicente, diante desse episódio memorável em Chatillon, teve a ideia de “organizar a caridade” para que o socorro daquela família acontecesse de forma ordeira, e que as doações pudessem ser entregues escalonadamente, em cotas menores e suficientes para a sobrevivência semanal ou mensal. Inicialmente, Vicente convidou as mulheres da cidade para organizarem a caridade e para cuidarem dos pobres e dos enfermos. Depois, outros leigos foram envolvidos nesse processo. A partir dessa experiência, o padre Vicente começou também a pedir doações perante as famílias abastadas da França, e iniciou seus projetos para acolher enfermos em hospitais.

Contudo, Vicente não chegou propriamente a estabelecer uma sistemática para as visitas semanais às famílias carentes. Todo o pensamento dele a respeito do assunto era transmitido nas palestras, nos escritos e nas homilias que ele dirigia aos paroquianos, às religiosas e às damas da caridade. Esse “clique” que Vicente de Paulo teve foi muito significativo, e marcou definitivamente o trabalho desse santo. Esse legado vem caracterizando praticamente todos os ramos da Família Vicentina, os fundados ou inspirados por ele, assim como a Sociedade de São Vicente de Paulo, cujo modus operandi reside justamente na visita domiciliar e na caridade organizada em nossas obras unidas e especiais.

Vicente foi inovador, único, vanguardista, pioneiro. Era missionário por natureza. Ele percebeu que aquele “pequeno gesto”, ao organizar a caridade em Chatillon, poderia ser replicado na França toda, especialmente na zona rural, por intermédio das famosas “missões”. E assim se fez: essa é a “marca registrada” de São Vicente de Paulo. Por meio da caridade organizada, Vicente estabelecia as duas dimensões da visita ao necessitado: a ajuda material e a ajuda espiritual. Tudo em Vicente era perfeito, pois ele estava sendo orientado pelo Espírito Santo para produzir boas obras, e possibilitar que outras pessoas pudessem desfrutar desse enorme benefício de santificação e conversão pessoal.

Se nós, vicentinos do século XXI, seguirmos à risca as orientações deixadas por Vicente de Paulo, por Rosalie Rendu, por Luísa de Marillac, Ozanam e os demais cofundadores, no sentido de praticar a verdadeira “caridade organizada”, iremos cada vez mais servir aos pobres com qualidade e eficiência. Essa organização é a responsável pelo êxito da ação vicentina, quer seja no aspecto administrativo das obras e projetos, quer seja no aspecto espiritual das visitas e do atendimento às famílias necessitadas.

Renato Lima (Divino 05/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Na caminhada da Sociedade de São Vicente de Paulo, especialmente no dia a dia das Conferências, Conselhos e obras, surge sempre um dilema: como dar publicidade aos atos de caridade sem expor a imagem dos nossos assistidos e beneficiados? Afinal, a tradição vicentina e a Bíblia nos ensinam que “Tu, porém, quando deres uma esmola ou ajuda, não deixes tua mão esquerda saber o que faz a direita, para que a tua obra de caridade fique em secreto, e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (São Mateus 6, 3).

Essa passagem das Escrituras é citada nas Cartas Circulares da maioria dos presidentes gerais da SSVP como sinal de humildade, pois gestos de amor devem ser feitos no anonimato. Desta forma, vivemos um dilema histórico, que é a questão da publicidade de nossos atos de caridade. Jamais podemos usar os meios de comunicação para nos promover ou fazer propaganda pessoal sobre os nossos feitos. Somente Deus deve olhar a nossa caridade ao irmão que sofre.

Contudo, temos que saber divulgar nossas obras e, assim, conseguir mais apoiadores para a causa vicentina. É um dilema e, acima de tudo, uma linha bem tênue entre a “promoção indevida” e a “informação necessária que deve ser propagada”. Uma pergunta que devemos sempre nos fazer quando estamos divulgando, difundindo ou dando publicidade um evento vicentino, especialmente pelas redes sociais: isso é “propaganda” ou é um “testemunho de vida”? Esta é uma questão que, eticamente, deve sempre nos preocupar.

No meu caso, como vicentino há mais de 30 anos e atualmente servindo como presidente geral, a relação entre caridade e os meios de comunicação social causa-me grande predileção, por dois motivos. O primeiro, que é óbvio, tem a ver com a nossa entidade, que atua no mundo justamente para praticar obras de misericórdia, entre elas a visita domiciliar ou o cuidado amoroso em nossas obras assistenciais. A segunda razão é profissional: sou jornalista e atuo no mercado de comunicações desde quando saí da universidade, em 1991. E dentro da SSVP, já atuei em vários Departamentos de Comunicação em nível de Conselho Particular, Central e Metropolitano. Portanto, conheço bem o assunto técnico do qual estamos nos referindo.

Hoje em dia, com o avanço das redes sociais, nunca foi tão oportuno falar sobre os meios de comunicações e refletir sobre o impacto deles no cotidiano das pessoas, dos governos e das instituições. O mundo mudou, e os meios de comunicação também. A leitura diária de jornais vem cedendo espaço para os posts nas redes sociais, alterando a maneira como as pessoas se informam. Há ainda o fenômeno das “fake news” (notícias falsas) ou das “verdades alternativas” que confundem os leitores e desqualificam as fontes confiáveis. É preciso ter cuidado com esse mundo novo, em que nem sempre as informações são verdadeiras.

Os Conselhos vicentinos devem estar preparados para desenvolver ações que melhorem a comunicação interna e a comunicação externa. As notícias das Conferências precisam ser conhecidas, e as decisões dos Conselhos precisam ser difundidas. Isso só pode acontecer se a comunicação fluir corretamente. Porém, deve-se ter cuidado para que a publicidade de nossos atos não seja vista como “falsa humildade” ou “promoção pessoal”.

Esse mundo novo exige de nós, vicentinos, uma postura também moderna para agir junto aos meios de comunicação, sem expor a imagem das pessoas assistidas, ao mesmo tempo em que podemos utilizar os meios de comunicação para difundir nosso carisma, recrutar novos membros e obter mais doações. Não é uma tarefa fácil, mas deve ser perseguida.

Devemos usar responsavelmente os meios de comunicação na defesa da justiça social e na proteção dos direitos dos vulneráveis. Da mesma forma, somos instados a aproveitar as ferramentas da modernidade em prol dos mais carentes. Ozanam e São Vicente, como certeza, se estivessem fisicamente entre nós, hoje, estariam envolvidos com essa temática.

Renato Lima (Divino 04/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018

 

Por ocasião da realização da assembleia geral vicentina em Paris, para a celebração dos 15 anos de fundação da Sociedade de São Vicente de Paulo, em 1848, o confrade Antônio Frederico Ozanam, a pedido do Presidente Geral àquela altura (Adolphe Baudon), preparou um discurso para ser lido em tal cerimônia, no qual ele começa a apresentar seu pensamento social. Baudon encontrava-se em recuperação após receber um tiro, durante a Revolução Burguesa de 1848, na França, vindo a amputar uma de suas pernas.

No discurso, Ozanam aborda muitos temas. Ele não se esquece de reconhecer o apoio do clero para o crescimento da ação vicentina. Da mesma maneira, Ozanam endereça um elogio aos assessores espirituais das Conferências, considerando-os fundamentais no dia a dia da SSVP. Noutra parte do texto, Ozanam fala sobre a importância das contribuições econômicas das Conferências aos Conselhos, comentando que “quanto mais as doações crescem, mais as atividades vicentinas se multiplicam”, permitindo que, assim, mais pobres passassem a ser assistidos.

Ele enfatiza que as necessidades dos mais carentes são muitas, e que as contribuições financeiras são importantes para a manutenção dos serviços vicentinos. O desemprego, a fome, o frio e outras carências são elencadas no discurso pois, segundo ele, a caridade praticada nas Conferências vai aliviar esses sofrimentos das pessoas. “Nas Conferências, aprendemos a exercitar o bem, e não poderia existir a falsa presunção ou qualquer aparente inferioridade dos assistidos”, enfatiza Ozanam.

Ozanam procura, nos parágrafos do discurso, transmitir uma mensagem aos novatos que estavam recém-ingressando na SSVP. Ele se preocupava em dar conselhos e fazer recomendações, refletindo sobre o papel social empreendido pelos confrades. Ele instigava aqueles jovens aspirantes com perguntas do tipo: “como aliviar a miséria sem remover suas causas?” ou “como regenerar o mundo e erradicar o mal?”. São indagações intrigantes que provocam, ainda hoje, nossa reflexão mais crítica.

Nosso principal fundador faz uma bela análise dos primeiros 15 anos da Sociedade de São Vicente de Paulo, focando também na importância da esmola. Ozanam foi contundente ao dizer que a esmola é importante e consiste numa ação que deveria ser praticada por todos. “A esmola não é um direito de ninguém, mas um dever para todos”, acentuou. Para ele, a justiça social se soma à caridade, e as pessoas que têm muito deveriam ser mais generosas com as que pouco ou nada têm. Na verdade, Ozanam prega que nós, vicentinos, seremos sempre “devedores dos pobres”.

É neste discurso que Ozanam proclama uma das frases mais célebres dele: “É muito pouco aliviar as tristezas dos indigentes. Devemos pôr as mãos nas raízes do mal e, por meio de sábias reformas, diminuir as causas reais da miséria do povo”. Aqui, ele deixa bem claro que somente a caridade não resolveria os males sociais, mas que a justiça social deveria ser acionada para atacar as causas da miséria. Fica bem clara a defesa que Ozanam faz da justiça social, antecipando-se à Doutrina Social da Igreja.

Ao final do texto, Ozanam compara a SSVP de 1833 com a de 1848, e faz questão de dizer que a entidade é a mesma, com seu espírito primitivo mantido. Ele rechaçou as divisões, as contendas e as discórdias que pudessem atingir a entidade. Ozanam também reforçou a necessidade da visita semanal domiciliar e pediu orações pelo clero. São orientações que nós, vicentinos do século XXI, também devemos seguir.

Renato Lima (Divino 03/2018)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2018


Temos refletido que a atuação Vicentina a favor dos mais humildes só será, de fato, potencializada, se nossos esforços puderem ser somados com a participação de outras entidades, pessoas, governos, Terceiro Setor, etc. Em outras palavras, as Conferências Vicentinas, sozinhas, até conseguem alcançar alguns objetivos; mas, tais desafios serão efetivamente conquistados se conseguirmos criar, formar e ampliar redes que possam nos auxiliar nessa caminhada.

A formação de redes, por exemplo, é uma maneira diferente de dizer “articulação institucional” em favor da caridade. Nos dicionários, encontramos a definição de formação de redes sociais como uma “estrutura social composta por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns”. Uma das características fundamentais na definição das redes é a sua abertura filosófica, possibilitando diversos relacionamentos entre os participantes, favorecendo um resultado mais eficaz junto a quem precisa efetivamente da solidariedade.

A formação de redes é, na realidade, uma estratégia de atuação bem eficaz a favor dos necessitados de nossas Conferências e obras. Procurando ampliar ainda mais o alcance das ações vicentinas, e aglutinar os recursos adequados para acelerar o processo de desenvolvimento das comunidades, a SSVP e a Família Vicentina devem convidar as várias instituições e atores presentes a se articularem em uma rede de apoio ao desenvolvimento social.

Como consequência, a formação de redes de apoio ao desenvolvimento comunitário e social deve ser visto como algo dinâmico, que traduza a integração de diferentes segmentos em ações frente às necessidades comuns, implicando num processo de adaptação contínua na busca de atender interesses coletivos. Podem até ser instituições distintas, mas cujos objetivos finais devem se assemelhar aos nossos. E os princípios Vicentinos, que defendem a solidariedade e a caridade, são muito próximos das metas de dezenas de outras instituições, nem sempre religiosas, mas, com a direção do serviço desinteressado.

No âmbito da SSVP, as Obras Especiais (vale a pena consultar os artigos 118 e 119 da Regra brasileira) já são uma alternativa pioneira para a formação de redes, uma vez que ofertam mais serviços aos assistidos. As Obras Especiais somam-se ao esforço das Conferências, e, portanto, são o complemento ideal ao trabalho vicentino. Nelas, podemos executar programas de assistência social, promoção humana, formação para o trabalho, educação infanto-juvenil, atendimento em saúde, complementação escolar, teatro e outras opções culturais, projetos de geração de trabalho e renda, que visem à inclusão no mundo do trabalho. A diversidade de atividades e iniciativas é imensa, contribuindo com a formação integral dos nossos assistidos.

A formação de redes, ao potencializar a ação Vicentina, ajuda-nos a tirar  a solidariedade do mero discurso e transformá-la em ações concretas. Isso só será possível através de uma cultura da solidariedade ativa, efetiva. Por isso, necessitamos de um diálogo permanente com outras entidades que atuam com os mesmos fins, ainda que levemente diferentes do nosso carisma. Essa formação de redes, para agir contra as pobrezas, é fundamental para turbinar a ação Vicentina.

Para tanto, a SSVP e a Família Vicentina precisam mapear todas as instituições solidárias (regionais e nacionais), com suas respectivas descrições e ações, aproximando-se daquelas que tenham mais a ver com o nosso estilo de ser, de agir e de ver o mundo. Essa verdadeira “rede de solidariedade” não é apenas composta de entidades, mas também de pessoas de bem (algumas delas nem católicas são), mas que estão dispostas a ajudar os Vicentinos a ajudar mais a quem precisa.

Nessa relação institucional, os Vicentinos devem identificar pessoas e organizações que se pautem pelos valores da caridade, honestidade, compromisso, solidariedade, autonomia e respeito pela vida e pela dignidade humana na perspectiva da responsabilidade social. E é claro, não podemos deixar que nosso nome seja usado politicamente por outras entidades que nos procuram com falsos interesses. Assim, na formação de redes, devemos nos atentar para combater qualquer tipo de utilização política partidária das ações vicentinas.

Não podemos nos esquecer da formação de redes virtuais para potencializar a prática da caridade, obter novas adesões e doações. A captação de recursos por intermédio das plataformas digitais (em inglês “crowdfunding”) é outra realidade que poderia ser adotada pela Família Vicentina. Mas esse tema será tratado noutra ocasião.

Renato Lima (Voz de Ozanam, Novembro 2017)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2017

 

O que oprime o pobre insulta àquele que o criou, mas, o que se compadece do necessitado o honra” (Provérbios 14, 31).
Enfrentar as dificuldades da vida, especialmente as econômicas, não é fácil para ninguém, até mesmo para as pessoas que tenham uma situação financeira mais estável. Todos nós, sem exceção, podemos passar por inúmeras adversidades, e a virtude reside justamente em saber mitigar os efeitos das crises em nossas vidas. Contudo, as famílias pobres, assistidas pelas Conferências Vicentinas, são as mais impactadas, diante da falta de preparo e condição social delas. Para poder ajudar os pobres de maneira mais eficiente, é preciso adotar um “pensamento sistêmico” que vai nos auxiliar a agir contra as pobrezas.

O pensamento sistêmico consiste num conjunto de procedimentos e métodos que possibilitam colaborar com as famílias carentes em todas as dimensões da vida, não somente no aspecto econômico (pobreza material), mas acima de tudo nas demais esferas, como a espiritual, psicológica, moral, social, profissional, fisiológica e educacional. O pensamento sistêmico é, por natureza, holístico, uma vez que interpreta o ser humano de maneira global, única e íntegra, avaliando todas as suas faculdades e potencialidades.

Cabe a nós, Vicentinos, por meio das Conferências e Obras (unidas ou especiais), empreender todas as nossas forças, talentos e habilidades em prol dos que sofrem, implementando o pensamento sistêmico na nossa maneira de agir e de ver o mundo. Esse novo pensamento nos impõe uma nova postura perante aos marginalizados, os excluídos, os desprovidos de bens materiais e também aqueles que perderam as esperanças na fé e adotam uma vida materialista, sem Deus, sem a oração e sem a caridade (estes últimos podem ser chamados de “pobres espirituais”). O pensamento sistêmico contra as pobrezas se encaixa em todas as possibilidades já descritas, não apenas na modalidade econômica e material, mais visível entre nós.

Agir contra as pobrezas, juntos, é o grande desafio de todos os cristãos batizados. Todos nós, Vicentinos da SSVP e da Família Vicentina, temos essa meta viva no nosso sangue, pois, assim foi idealizado por São Vicente de Paulo e pelos fundadores da primeira Conferência Vicentina. Isso está muito claro para todos nós que escolhemos servir a Cristo pela prática da caridade. Lamentavelmente, essa forma de ver o mundo não é majoritária neste planeta, razão pela qual enfrentamos enormes desafios, como o terrorismo, pessoas que passam fome, guerras, intolerância, indiferença, desemprego, depressão e outras doenças.

Somente juntos, unidos e focados, é que venceremos as pobrezas (as nossas misérias pessoais e as dos outros). O pensamento sistêmico se insere nesse bojo, contribuindo para a resolução dos problemas. O pensamento sistêmico nos ajuda, também, a ter uma visão crítica da realidade, e nos abre os olhos para as possíveis saídas ante os dilemas a serem enfrentados. Porém, antes de agirmos assim, precisamos estar de bem conosco mesmos. Talvez esse seja o maior desafio de quem atua no campo da caridade ou do voluntariado: estar, primeiramente, bem com Deus, com sua família pessoal, com seus amigos e vizinhos, com seus colegas de trabalho e na Igreja.

É óbvio que, antes de levar a mensagem de paz e de ternura ao próximo, é preciso que estejamos em paz com nossa mente, nosso espírito e nosso coração. De que adiante distribuir cestas básicas num sábado e no domingo faltar à missa ou discutir agressivamente em família? De que adianta posar de “doutor caridade” se a pessoa é dissimulada entre os amigos? Como podemos dizer que somos vicentinos se, às vezes, damos contratestemunho nas redes sociais? Essas incoerências nos fragilizam, e nos afastam de nossa vocação missionária: o serviço amoroso a quem precisa.

Portanto, é preciso deixar-se inebriar pelo “pensamento sistêmico” que nos ajudará a vencer as pobrezas, quaisquer que sejam elas, especialmente as morais, espirituais e psicológicas. Pensar desta maneira, com esse “tempero vicentino”, é a melhor alternativa para enfrentar os desafios da vida. Por exemplo, no momento da visita domiciliar, podemos estimular as famílias assistidas a buscarem uma vida profissional completa, incentivando-as aos estudos, à formação laboral, à reciclagem de conhecimentos e à atualização sobre o mercado de trabalho. Também podemos incrementar a nutrição das famílias, orientando-as no preparo de alimentos e na compra dos ingredientes mais saudáveis. Além disso, não podemos nos esquecer de falar sobre a vida espiritual e a presença na Igreja (com a vivência dos sacramentos), pois, esses elementos cuidam da nossa saúde espiritual, que não pode ser relegada a segundo plano, jamais.

Uma ideia, baseada no “pensamento sistêmico” e que pode “contaminar” positivamente a nossa querida SSVP é, por exemplo, definir uma meta audaciosa para um futuro bem próximo. Por exemplo: acabar com a pobreza extrema em 2033, data em que nossa entidade festejará os 200 anos de nascimento. Quer melhor presente que nós, Vicentinos, poderemos dar para Deus e para Nosso Senhor Jesus Cristo? Por isso, caros confrades e queridas consócias, deixo um pergunta para reflexão na Conferência: o que podemos fazer, de efetivo, para ajudar os assistidos a vencerem na vida?



Renato Lima (Voz de Ozanam – Set/Out – 2017)

Fonte: http://maikol.com.br/index.php/outros/renato/2017

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